Panamá · San Blas

No Reino Gunayala

Isla Perro Grande

Eu passei 4 dias no paraíso e nem precisei morrer, mas, chegar lá é um périplo e tanto, temos que abrir mão de todo e qualquer conforto material, da nossa autonomia, dos prazeres à mesa, das bebidas prediletas e até mesmo dos hábitos de higiene mais prosaicos, então pense bem antes de decidir se vale a pena embarcar nessa onda. E se for, por favor, use chip digicel caso queira continuar ligada ao resto do planeta.

Isla Gardi Sugdub

O arquipélago de San Blas, parte do território autônomo dos Guna (até 2010, Kuna) possui 365 ilhas onde as famílias residentes cuidam do turismo, da pesca, da exportação de cocos, da venda de artesanato e do abastecimento aos barcos fundeados na área, tudo nos moldes de sua própria cultura, rústica e às vezes inalcançável para nossas mentes atormentadas pela civilização.

O barco Kuna levando turistas.
Gardi Sugdub

As ilhas contam com alojamentos compartidos ou não, semelhantes às cabanas indígenas ou palafitas em madeira com teto de zinco cuja maioria, com exceção das Cabanas da Isla Wailidup e Narasgandup na Isla Naranjo Chico, não tem banheiro. Aqueles ditos “partilhados” são a “casinha” isolada, como ainda hoje encontramos em alguns pontos do interior brasileiro. Há, ainda, a possibilidade de hospedagem em veleiros ou catamarãs cujas diárias variam de 120 a 800 dólares, em função do tamanho da embarcação e suas comodidades.

Isla Wailidup
O luar

Eu não tenho maiores intimidades com a vida a bordo, gosto de estar perto do mar, de apreciar seus movimentos, de caminhar na beirinha d’água, mas “embarcada” nunca me inspirou prazer. Até hoje só havia navegado 4 noites no Iberostar amazônico e outras 7 no Australis, um cruzeiro de expedição fabuloso entre as Patagônias Chilena e Argentina. Como o enredo sanitário nas ilhas Kuna me pareceu aterrador (e se no caminho, na madrugada, tiver um bicho?) e as suites caras demais para o que oferecem, optei por hospedar-me em um barco, e, na falta absoluta de critérios de escolha, dado meu desconhecimento sobre o assunto e o pouco tempo para decidir (estou easy rider, o máximo que faço é comprar a passagem de saída de cada país), escolhi, dentre aqueles da faixa de preço adequada, um veleiro tripulado por um casal, um cachorro e um papagaio, certa de que pelo menos os 2 últimos seriam boas companhias.

Isla Perro Grande

Daí em diante a empresa indicada pelo Capitão organiza os traslados, via zap e e-mail. Saída às 5 da manhã em 4×4, 3 horas de estrada com direito a montanha-russa nos últimos 40 minutos, já em território Kuna. Chegando no Porto Barsukun à beira do Rio Cartí Grande, diante da confusão de gente, carros, mercadorias e barcos a sensação é de que se embarcarmos sem dúvida seremos seres afortunados, mas, depois de esperar um tempo (bem longo na volta) tudo dá certo!

O Rio Carti Grande, a caminho do arquipélago de San Blas.
O Namastê ao por-do-sol

O barco Kuna que nos conduz até o local de hospedagem é um primor de desconforto, ainda mais na ida quando navegamos contra o fluxo da maré durante uns 30 minutos, aos pulos no banco de madeira. Haja lombar! A dica da Sandra, minha anfitriã no veleiro Namastê, é pedir outro salva-vidas ao capitão para proteger a coluna.

Os pescadores

Embarcando no veleiro estamos sob a responsabilidade do Capitão, todas as decisões são dele e há uma série de regras em função das características da embarcação (e outras nem tanto). A energia é solar e éolica, complementada com diesel; a água do mar é dessalinizada para consumo, um processo que demanda tempo e energia, de modo que seu uso é restrito; o sanitário deságua no mar, cujas águas são bombeadas a cada descarga; existe o lugar certo para nos acomodarmos ao levantar âncora e ao navegar, para nos apoiarmos, para pisarmos. E, pasmem, horário para dormir e acordar!!!

Loro, tripulante do Namastê.

Branquinho, o lobo do mar, tripulante do Namastê.

Claro que ao me envolver nessa aventura eu me preparei mentalmente para uma repentina intimidade com desconhecidos, porém, no primeiro contato pessoal quase entro em pânico ao sentir um provável aroma bolsominion no ar. Decidi funcionar em modo “alheamento total” (sou boa nisso!) e, salvo raros eventos meio irritantes (quem me conhece sabe o quão desagradável posso ser nesses momentos) tudo se deu num clima ameno, a Sandra e o Carlos, meus hostess no Namastê, são gentis e atentos à segurança e bem estar do hóspede. Foi ótimo, ainda mais porque a Sandra pertence ao seleto grupo de privilegiados nascidos na Bahia que carregam vida afora uma sensibilidade e percepção especial, e, mesmo num meio hostil aos melhores cozinheiros do planeta, ela sabe valorizar os sabores intrínsecos aos poucos, mas excelentes, produtos de que dispõe.  Sua cozinha é deliciosa!

Uma imensa piscina no meio do mar!

As ilhas a visitar também são decididas pelo Capitão, acredito que conforme a direção e intensidade dos ventos. A cada final de tarde nos dirigíamos ao destino do próximo dia. Na manhã seguinte uma breve corrida de bote até a ilha da vez. A Sandra me ciceroneava por um tempo, depois voltava para preparar nosso almoço. Eu ficava em terra o máximo possível, curtindo o mar, lendo, caminhando na beira d’água, vendo as crianças, os pássaros, as atividades dos índios. No último dia flutuamos numa piscina no meio do nada, estrelas do mar, peixinhos, corais. Foi lindo, mas paupérrimo em relação à Fernando de Noronha, Maragogi ou Porto de Galinhas.

As ilhas são pequenas e tendem a desaparecer com o aumento do nível do mar.
Isla Wailidup ao entardecer

O arquipélago é maravilhoso para os apreciadores de surfe, windsurf, bodyboard, canoagem, stand up paddle, kitesurf e tantas outras variações de esportes aquáticos, mas acho bom os interessados se informarem sobre as restrições dos Kunas: mergulho e arpão, por exemplo, nem pensar, o que é lamentável pois há alguns navios encalhados nas imediações.

A vida a bordo é espartana, solitária e trabalhosa, a maior parte do tempo é aplicada na manutenção da embarcação e provimento das necessidades de seus tripulantes. Nesses poucos dias pude observar a intensidade da dedicação à essa opção festejada pelos navegadores como libertadora, mas realmente tenho dúvidas quanto a me sentir livre diante de tantas obrigações. Entendo que se trata de eleger a qual senhor servir e não de estar imune à escravidão.

A cabana cozinha dos Kunas e os cocos secos para venda na Ilha de Yansaladup.

Também nas relações sociais esse modo de vida impõe suas idiossincrasias, existe uma rede colaborativa consistente, o bom convívio com os indígenas e entre os navegantes é imprescindível, as amizades me pareceram mais utilitárias do que afetuosas.

As duas bandeiras são da Nação Guna, a da suástica é da Revolução Dune, símbolo da luta dos Gunayala por seu território.
Isla Chichimé
Em Yansaladup, o preparo da refeição na cabana/cozinha: patacon, coco, peixe e cambombia.

Em relação à civilização Kuna aprendi pouco, quase nada. Pelas minhas pesquisas inferi que naturalmente seria conduzida a Carti Sugdub, onde os nativos apresentam suas danças e provavelmente eu descobriria fatos interessantes sobre os hábitos e crenças desse povo, porém, o veleiro que contratei estava distante. Pelo que pude observar, eles apresentam pouca estatura, são reservados, se relacionam com leveza e são guerreiros. Foram firmes na defesa contra espanhóis e panamenhos e, dizem, há pouco tempo cortaram as cabeças dos policiais quando ousaram coibir alguns hábitos das mulheres Kunas! Produzem um belo artesanato, figuras compostas por tecidos recortados e sobrepostos, as molas; as mulheres decidem, distribuem os alimentos e são as proprietárias, inclusive do resultado do trabalho dos homens; não existe preconceito de gênero, as crianças se desenvolvem conforme sua própria natureza e os omeggid, transexuais, vivem como as mulheres da comunidade; são governados pelo Congresso General Guna, composto de Caciques Generales; e, definitivamente, não querem “civilizados” se metendo em suas vidas ou negócios.

A artesã Lisa exibindo seu trabalho, “mola”.

Europeus e americanos do norte constituem a maioria dos turistas que vi por onde passei, atualmente animadíssimos para conhecer a Isla Pelicano, divulgada no (péssimo!) seriado espanhol “La Casa de Papel”. Mesmo avessos às instituições estrangeiras, dessa vez os Gunas foram bons de marketing.

A cabana de dormir dos Kuna na Ilha Yansaladup.

Mais fotos aqui: https://photos.app.goo.gl/HZ9dzMNiqLeRzTkr7

A seguir estão os links dos serviços que utilizei e de informações mais detalhadas sobre os Kunas.

Transfer Cidade do Panamá/San Blas

http://lamtourspanama.com/

Namastê

https://www.facebook.com/carloshpoffo

Hospedagem em barcos em San Blas

https://www.sailboattrips.com

Sobre os Gunayala

https://es.wikipedia.org/wiki/Revoluci%C3%B3n_guna

https://www.terra.com.br/noticias/o-plano-de-fuga-de-comunidade-indigena-em-ilha-ameacada-de-desaparecer-sob-o-mar,a278939ba7067fd050dd899b72aa50e3n1u24dir.html

https://journals.openedition.org/ideas/4506

https://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-46202845

4 comentários em “No Reino Gunayala

  1. Prima! Se esse é o ‘paraíso’, que os deuses me livrem do ‘inferno’!!! Devo confessar que sou, absolutamente, urbana, embora nada ‘luxenta’. Não obstante, amei seu relato e imagino que tenha sido uma bela experiência, já que é do seu agrado.

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  2. Uau!!!
    Você é corajosa demais!!
    Te admiro!
    Que bom que planejou e teve a experiência que sonhou.
    Parabéns!
    Eu não toparia esse tipo de viagem rs
    😘😘

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